domingo, 30 de dezembro de 2012

PARA QUE ESTUDAR MATEMÁTICA?


Quando entramos para a sala de aula, como professores ou como alunos, uma das primeiras perguntas que nos surge é: Por que estamos estudando isso? Onde vou usar essa matéria? Isso não é diferente com a Matemática. Como professores, ouvimos várias vezes: “Pra que é eu preciso aprender equação do segundo grau?”

Com a palavra Alex Jordane e Rony Freitas, professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES).

Claro que não temos a resposta para todas as perguntas, mas podemos refletir um pouco sobre o assunto e buscar a entender um pouco mais onde e como a Matemática aparece no nosso dia a dia.

Uma primeira questão é relativa à compreensão que temos da Matemática. Podemos acreditar que ela é uma ciência descoberta, que sempre existiu em um mundo superior, ou um “mundo das ideias”, como afirma Platão. Isso pressupõe desconsiderar todo o seu processo de construção, ao longo dos milhares de anos e por milhares de pessoas.

Outra questão é, exatamente, que a Matemática foi construída ao longo dos anos e construída por milhares de pessoas. Assumimos assim uma Matemática que se insere na história das humanidades, que cresce à medida que mais e mais sujeitos se envolveram e se envolvem na busca de respostas às necessidades humanas.

A TEORIA E PRÁTICA

A Matemática cresce com o desejo de solucionar os problemas que, de alguma forma, afligem as humanidades. Ora, se é assim, a Matemática é marcada de vida. Inserida na vida e com o propósito único de promover a vida. Vida plena e para todos. Seria incoerente se ela não fizesse parte de nossa vida.

Um complicador, no entanto, é estabelecer uma relação entre o saber matemático mais sistematizado e o saber construído na vida, pela vivência, aquele que faz parte de nosso dia a dia. Esse elo científico-cotidiano tão importante fica mais complexo se lembramos do caráter mutante do saber do cotidiano, que se modifica toda vez que o conhecimento científico se aproxima dele.

Responder às questões colocadas no início de nossa conversa não é tão simples assim. Uma preocupação aqui deve ser a de não colocar a Matemática sistematizada como mais ou menos importante que a Matemática do dia a dia, entendendo que um conhecimento é tão necessário quanto o outro. Estabelecer uma ponte entre as experiências de vida e o conhecimento matemático sistematizado talvez seja o maior desafio dos educadores matemáticos. Afinal, como nos afirma o educador matemático Ole Skovsmose, “a tradição matemática escolar nos impede de ver a Matemática operando em situações do cotidiano, apenas porque não há tanta Matemática escolar nessas situações. Nenhuma simples equação é resolvida”.

Esse mesmo educador matemático completa ainda afirmando que o que dificulta essa ligação é o fato de o conhecimento que permeia nosso cotidiano não ser expresso em palavras ou conceitos, mas em ações. Isso significa que, ao se deparar com um tipo de conhecimento matemático em que a linguagem precisa ser expressa por escrito, o estudante constantemente costuma não ver a relação alguma entre as duas. Nós, professores, assumimos, nesse momento, um papel importantíssimo, que é o da mediação, para que o aluno possa vincular esses conhecimentos, quando possível, ou utilizar conhecimentos anteriores para compreender essa nova Matemática que lhe aparece. O professor pode, com isso, colaborar para que as manifestações em ações, advindas do conhecimento tácito, possam ser complementadas, não necessariamente transformadas, por manifestações conceituais.

DEBATE NECESSÁRIO

Podemos resumir a discussão em algumas poucas palavras. Primeiro, partimos da ideia de que a Matemática é um construto humano e em constante transformação. Consideramos que os conhecimentos do dia a dia, mais ligados às ações, não são mais nem menos importantes que os conhecimentos sistematizados, mas que ambos interagem e se influenciam. Finalmente, é nossa função enquanto educadores estabelecer a ligação direta entre essas duas matemáticas, buscando um equilíbrio delas em sala de aula.

Essa discussão é apenas um começo de conversa. Caso queira discutir mais profundamente, propomos que provoque seus colegas, trata a discussão à tona e, se quiser, nos procure para continuarmos esse papo.

Fonte: Revista Mundo Jovem, abril/2011.

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