Quando entramos para a sala
de aula, como professores ou como alunos, uma das primeiras perguntas que nos
surge é: Por que estamos estudando isso? Onde vou usar essa matéria? Isso não é
diferente com a Matemática. Como professores, ouvimos várias vezes: “Pra que é
eu preciso aprender equação do segundo grau?”
Com a palavra Alex Jordane e
Rony Freitas, professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Espírito Santo (IFES).
Claro que não temos a resposta
para todas as perguntas, mas podemos refletir um pouco sobre o assunto e buscar
a entender um pouco mais onde e como a Matemática aparece no nosso dia a dia.
Uma primeira questão é
relativa à compreensão que temos da Matemática. Podemos acreditar que ela é uma
ciência descoberta, que sempre existiu em um mundo superior, ou um “mundo das
ideias”, como afirma Platão. Isso pressupõe desconsiderar todo o seu processo
de construção, ao longo dos milhares de anos e por milhares de pessoas.
Outra questão é, exatamente,
que a Matemática foi construída ao longo dos anos e construída por milhares de
pessoas. Assumimos assim uma Matemática que se insere na história das
humanidades, que cresce à medida que mais e mais sujeitos se envolveram e se
envolvem na busca de respostas às necessidades humanas.
A TEORIA E PRÁTICA
A Matemática cresce com o
desejo de solucionar os problemas que, de alguma forma, afligem as humanidades.
Ora, se é assim, a Matemática é marcada de vida. Inserida na vida e com o
propósito único de promover a vida. Vida plena e para todos. Seria incoerente
se ela não fizesse parte de nossa vida.
Um complicador, no entanto,
é estabelecer uma relação entre o saber matemático mais sistematizado e o saber
construído na vida, pela vivência, aquele que faz parte de nosso dia a dia.
Esse elo científico-cotidiano tão importante fica mais complexo se lembramos do
caráter mutante do saber do cotidiano, que se modifica toda vez que o
conhecimento científico se aproxima dele.
Responder às questões
colocadas no início de nossa conversa não é tão simples assim. Uma preocupação
aqui deve ser a de não colocar a Matemática sistematizada como mais ou menos
importante que a Matemática do dia a dia, entendendo que um conhecimento é tão
necessário quanto o outro. Estabelecer uma ponte entre as experiências de vida
e o conhecimento matemático sistematizado talvez seja o maior desafio dos
educadores matemáticos. Afinal, como nos afirma o educador matemático Ole
Skovsmose, “a tradição matemática escolar nos impede de ver a Matemática
operando em situações do cotidiano, apenas porque não há tanta Matemática
escolar nessas situações. Nenhuma simples equação é resolvida”.
Esse mesmo educador
matemático completa ainda afirmando que o que dificulta essa ligação é o fato
de o conhecimento que permeia nosso cotidiano não ser expresso em palavras ou
conceitos, mas em ações. Isso significa que, ao se deparar com um tipo de
conhecimento matemático em que a linguagem precisa ser expressa por escrito, o
estudante constantemente costuma não ver a relação alguma entre as duas. Nós,
professores, assumimos, nesse momento, um papel importantíssimo, que é o da
mediação, para que o aluno possa vincular esses conhecimentos, quando possível,
ou utilizar conhecimentos anteriores para compreender essa nova Matemática que
lhe aparece. O professor pode, com isso, colaborar para que as manifestações em
ações, advindas do conhecimento tácito, possam ser complementadas, não
necessariamente transformadas, por manifestações conceituais.
DEBATE NECESSÁRIO
Podemos resumir a discussão
em algumas poucas palavras. Primeiro, partimos da ideia de que a Matemática é
um construto humano e em constante transformação. Consideramos que os
conhecimentos do dia a dia, mais ligados às ações, não são mais nem menos
importantes que os conhecimentos sistematizados, mas que ambos interagem e se
influenciam. Finalmente, é nossa função enquanto educadores estabelecer a
ligação direta entre essas duas matemáticas, buscando um equilíbrio delas em
sala de aula.
Essa discussão é apenas um
começo de conversa. Caso queira discutir mais profundamente, propomos que
provoque seus colegas, trata a discussão à tona e, se quiser, nos procure para
continuarmos esse papo.
Fonte:
Revista Mundo Jovem, abril/2011.
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